Brasil

Marcas de relógios brasileiras

26 de agosto de 2026 atualizado a 29 de agosto de 2026 por Ricardo Azevedo

Do esmalte Grand Feu de Maringá às marcas de shopping, um retrato honesto da relojoaria brasileira — e do caso à parte que é a fábrica da Orient em Manaus.

O Brasil tem uma relojoaria muito maior do que a Europa imagina, dividida em três mundos que quase não se falam: um punhado de projetos autorais a fazer coisas sérias, um mercado de massas gigantesco, e uma fábrica japonesa em plena Amazónia.

Statera — o caso mais sério

Sediada em Maringá, no Paraná, a Statera encomenda calibres mecânicos automáticos a uma manufatura suíça e faz a montagem e a afinação finais no seu próprio ateliê — um nível de verticalização que praticamente nenhuma marca brasileira alcança.

Os mostradores são em esmalte Grand Feu, técnica cozida em forno que muito poucas casas no mundo dominam e que tem taxas de rejeição altíssimas. Trabalha exclusivamente em séries limitadas: o Calculus em 100 unidades, o Emerald em 30, e a linha Marine. É a prova de que se pode fazer alta relojoaria a sério no Brasil.

Roue — a mais internacionalizada

A Roue está presente em mais de 60 países, o que nenhuma outra marca brasileira consegue. A identidade nasce toda da cultura automóvel dos anos 60 e 70: mostradores com texturas de painel de instrumentos, tipografia de rali, braceletes perfuradas de condução e paletas de cor de carroçaria da época.

É o caso que melhor mostra que uma microbrand bem posicionada não precisa de depender do mercado interno.

A nova vaga

  • Terranova — de 2024, com design autoral que assume a identidade cultural brasileira em vez de imitar códigos suíços ou japoneses. Usa o Seiko NH35, o automático de referência das microbrands em todo o mundo.
  • ACTO — luxo acessível: calibres Miyota, cristal de safira e edições limitadas, uma combinação que no retalho tradicional brasileiro obrigaria a subir bastante de preço.
  • Vittorino — aço 316L e safira em toda a gama, versões em quartzo e automático da mesma linha, e venda através de aplicação própria.
  • Corso — de Porto Alegre, trabalha só em séries pequenas e numeradas. Escassez real, não escassez de marketing.
  • Jean Vernier — mais de 45 anos de mercado, estilo europeu clássico a preços acessíveis. Foi o primeiro relógio de vestir de muita gente.

O mercado de massas

É aqui que está o volume. A Technos foi fundada na Suíça em 1900 e é brasileira desde 1994; tem uma implantação enorme no retalho e uma ligação histórica ao futebol. A Mormaii nasceu no surf de Garopaba e domina o segmento desportivo. Juntam-se-lhes a Seculus, a Magnum, a Condor, a Champion, a Dumont e a Chilli Beans.

Atenção à confusão de nomes: a Mondaine brasileira não tem nada a ver com a Mondaine suíça dos relógios oficiais das estações de comboio. São empresas diferentes com o mesmo nome.

O caso à parte: Orient em Manaus

A Orient Relógios da Amazônia opera uma fábrica em Manaus, na Zona Franca, desde os anos 70, com faturação na ordem dos 600 milhões de reais por ano. É uma marca japonesa, mas com produção local e um catálogo de referências exclusivas do mercado brasileiro que não existem na Europa.

Para quem está em Portugal, isto é relevante: há automáticos Orient com bom acabamento a preços que cá não se encontram, e modelos que só existem lá. Se tens família no Brasil ou vais em viagem, é das compras mais inteligentes que podes fazer na relojoaria acessível.

O que esperar do mercado brasileiro

Os impostos de importação no Brasil são pesados, o que torna as marcas suíças proibitivas e cria espaço para a produção local — e é isso que explica um mercado interno tão grande. O mesmo protecionismo, no entanto, dificulta a exportação e a compra de componentes, o que torna ainda mais notável o que a Statera e a Roue conseguiram.

Perguntas frequentes

A Technos é suíça ou brasileira?

As duas coisas, em momentos diferentes. Foi fundada na Suíça em 1900 e a operação passou para controlo brasileiro em 1994. Hoje é uma das marcas mais vendidas do Brasil.

Vale a pena comprar um Orient no Brasil?

Se estiveres lá, sim. A fábrica de Manaus produz referências exclusivas do mercado brasileiro que não existem na Europa, muitas vezes com bom acabamento e preços que cá não se encontram. Confirma a garantia internacional antes de comprar.

Existe alta relojoaria brasileira?

Existe, e é recente. A Statera, de Maringá, faz mostradores em esmalte Grand Feu e monta e afina calibres suíços no ateliê próprio, em séries limitadas. É o projeto mais ambicioso do país.

Continuar a ler