Portugal

Marcas de relógios portuguesas

27 de agosto de 2026 atualizado a 29 de agosto de 2026 por Ricardo Azevedo

Portugal teve a primeira fábrica de relógios da Península Ibérica e tem hoje uma nova geração de marcas. O que existe, o que é feito cá, e o que é apenas marca.

A relojoaria portuguesa é uma história curta em quantidade e longa em teimosia. Nunca tivemos uma indústria como a suíça ou a alemã, mas tivemos uma fábrica que produziu relógios em série durante mais de um século, e temos hoje projetos novos que fazem coisas que ninguém esperaria de um país sem tradição relojoeira.

Aviso importante para quem pesquisa isto: o IWC Portugieser não é português. Chama-se assim porque em 1939 dois comerciantes portugueses encomendaram à IWC relógios de pulso com a precisão de um cronómetro de marinha. O relógio é suíço; a encomenda é que era nossa.

Reguladora — a mais antiga da Península Ibérica

A Reguladora foi fundada em 1892 por João José de São Paulo e José Gomes da Costa Carvalho, e instalou-se em Vila Nova de Famalicão em 1896. É a primeira fábrica de relógios da Península Ibérica e obteve patente própria de melhoramentos em movimentos mecânicos logo em 1893 — não montava peças de outros, desenvolvia.

Chegou a empregar 220 pessoas em 1914. Ganhou medalhas de ouro em exposições em Gaia e no Rio de Janeiro. Construiu casas para os operários e uma central elétrica a vapor que iluminou a vila. Produziu relógios de parede, de mesa, de bolso, de cuco e despertadores para os caminhos-de-ferro portugueses — daqueles que estavam em todas as estações e em metade das cozinhas do país.

A fábrica fechou em 2012. O nome foi retomado por antigos trabalhadores, sob a designação Regularfama, com as caixas ainda produzidas em Famalicão e o objetivo declarado de voltar a fabricar movimentos em Portugal. Se conheces alguém com um relógio de parede antigo lá em casa, há uma boa hipótese de ser um Reguladora.

Escudo — a nova geração

A Escudo é desenhada e desenvolvida entre Londres e Lisboa, e assume a herança portuguesa no nome, na paleta e nos modelos: Preto, Deep Azul, Atlantic Sky, Preto Eclipse.

São mergulhadores de 39 mm em aço 316L, com 200 metros de estanquidade, cristal de safira em caixa com tripla camada antirreflexo, bisel unidirecional de duplo rolamento de esferas e Super-LumiNova C1 em índices tridimensionais. O movimento é o calibre Escudo 1488, de base Sellita SW200-1 suíça, sem data. Todas as peças saem numeradas em edição limitada.

São especificações que colocam a marca acima da média das microbrands europeias, num nível de acabamento e proporções que se costuma pagar bem mais caro.

O que "português" quer mesmo dizer

Vale a pena separar três coisas que se confundem muito nesta conversa:

  • Desenhado em Portugal. O conceito, o design e a marca são nossos. É o caso da esmagadora maioria dos projetos novos, e não é pouco — o design é o que distingue um relógio de outro.
  • Montado em Portugal. As peças vêm de fora, a montagem final e a afinação são feitas cá. Um patamar acima, e mais raro.
  • Fabricado em Portugal. Componentes produzidos cá. Praticamente ninguém no mundo faz isto a 100%, nem na Suíça. A Reguladora fazia-o, e é isso que a torna historicamente relevante.

Nenhuma destas categorias é desonesta desde que a marca não minta sobre onde está. Desconfia de quem usa "Swiss" no material de marketing sem cumprir os requisitos legais para o rótulo, e de quem fala em "manufatura" sem manufatura nenhuma.

Porque é que isto interessa

Uma marca portuguesa dificilmente vai competir com a Suíça em movimento ou em preço. O que pode fazer, e algumas fazem, é design com uma identidade que não existe mais em lado nenhum, séries pequenas, e uma relação direta com quem compra — falas com o fundador, não com um call center.

Para um colecionador, é também das poucas formas de ter uma peça com significado local. Um Reguladora antigo custa pouco no mercado de usados e tem mais história atrás dele do que muita coisa que se vende hoje por dez vezes mais.

Falta alguma?

Este é um levantamento em aberto e certamente incompleto. Se conheces uma marca portuguesa que não está aqui, diz-nos e nós verificamos e acrescentamos.

Perguntas frequentes

O IWC Portugieser é um relógio português?

Não. É suíço, da IWC. O nome vem de uma encomenda feita em 1939 por dois comerciantes portugueses que queriam relógios de pulso com a precisão de um cronómetro de marinha.

Ainda se fabricam relógios em Portugal?

Em parte. A Reguladora, em Vila Nova de Famalicão, ainda produz caixas em Portugal e tem como objetivo declarado voltar a fabricar movimentos. As marcas novas desenham cá e recorrem a componentes suíços e japoneses, como praticamente toda a indústria.

Onde compro um Reguladora antigo?

No mercado de usados português — feiras de velharias, leilões online e grupos de colecionadores. Os relógios de parede e os despertadores aparecem com regularidade e a preços acessíveis. Confirma sempre se o movimento está completo antes de comprar.

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